quarta-feira, 4 de janeiro de 2017

MOREIRENSE X FC PORTO

Meu caro Nuno

Tive o desprazer de ver o jogo de ontem. O trabalho dos senhores de preto foi vergonhoso, aliás, à semelhança do que tem sido norma geral esta época, pelo que penso que o senhor pode dizer desde já que o Campeonato está entregue, tal como as Taças já estão.

Posto isto, vamos mesmo àquilo que interessa.

Temos um plantel mísero face àquilo que se lhe exige. Gosto da sua ideia de jogo, desde que assumiu o 4x4x2, com dois alas a sério em vez dos médios centro. Isso obrigou-o a encostar o Herrera, o que só por si é uma grande ajuda, mas trouxe-lhe uma série de problemas adicionais que agora vai ter de resolver.

Na minha opinião, tentava fazer o melhor possível, mas assumia que este ano era para esquecer e focava-me essencialmente no próximo ano. E definia desde já quais são os orçamentos com que se pode guiar e quais são as perspectivas que vai ter. E para o ano, então sim, atacar a época toda a sério.

Comecemos pelo princípio. Peseiro já o confirmou e o senhor um dia destes também o vai fazer. Herdou um plantel miserável e que tem muitas lacunas. Convenhamos que o senhor não foi muito eficaz a resolvê-las todas, mas minimizou algumas. Vou assumir o seu 4x4x2, que de gosto, para umas sugestões para o futuro.

Comecemos pela baliza. Casillas é um bom guarda-redes. José Sá dá mostras de que, apesar de tudo, pode vir a ser um bom guarda-redes. Gudiño e, talvez, a compra de Joel Pereira ao Man United, isto se Mourinho o quiser vender, são boas garantias de futuro. Sempre poupa €5M líquidos, ou seja, quase €10M brutos, por ano (é o que dizem que ganha, não sei se é verdade), e não perde muito com isso. Sá, Gudiño e João Costa seriam os meus 3 GK para 17-18.

Passemos à defesa. Maxi vai a caminho dos 33. Temos Layun (que dispensa apresentações), Victor Garcia (que está a ser bastante regular no Nacional) e Ricardo Pereira (que foi considerado o 4º melhor lateral da Europa o ano passado). Mais Diogo Dalot e o Francisco Ferreira, da equipa B. São opções mais que suficientes. Maxi mais os €3M (pelo que dizem), ou seja €6M brutos, iam terminar a carreira nas arábias e Ricardo Pereira ou Layun seriam belíssimos encaixes financeiros para uma SAD desprovida de capital.

Do lado esquerdo, Alex Telles e Rafa Soares garantem uma defesa para muitos anos. Inácio deu boas indicações no jogo que jogou e Kayembe pode também fazer a posição. De todo o modo, uma boa prospecção seria ideal para combater alguma debilidade.

No centro, Felipe é para acabar a carreira no Porto. Central certinho, que faz com que o Marcano esteja muito mais confiante. Parece quase o Maldini. Boly não serve (já reparou que sempre que joga o Porto nunca ganha?), pelo que já mostrou. Aqui terá que desembolsar outros €6M para ir buscar Ricardo Ferreira ao Braga (jogador das escolas do FC Porto, não esquecer!) antes que outros se antecipem. E talvez promover o Verdasca. Talvez. Chidozie é para mandar para a terra onde nasceu.

No meio, Ruben Neves tem um azar dos diabos por ter à frente dele um senhor que é o melhor trinco português (acho que é melhor que Fejsa, mas isso é discutível). Daqui não se mexe. No meio, Óliver (se ficar) é um bom número 8. Acontece que, daqui para a frente, não há mais alternativas. PARA LUGAR NENHUM. E vai ser isto (principalmente isto, e as arbitragens, mas principalmente isto) que vai matar a nossa época este ano.

Óliver é um belíssimo jogador. Mas faz falta outro. Nem Sérgio Oliveira (que é feito dele, que agora nem joga?), nem João Carlos Teixeira (o que é feito dele que também nem tem jogado?), Herrera é para esquecer e André André é muito esforçado, mas não tem qualidade para jogar no FC Porto, são alternativas válidas. Neste caso, é ficar com Oliveira e talvez André, e andar à procura de jogadores. Josué porque é que foi embora? Se calhar poderia ser o nº 8 que o FC Porto precisa. Os outros podem valer encaixes significativos para atacar as lacunas que o plantel tem. E a sério. Graça e Ramos podem ajudar, mas falta um número 8 que dê luta a Óliver e que o permita fazer descansar.

Para a frente tem Brahimi e Corona. Mais Octávio, que tem muito que crescer. Brahimi vai para a CAN. Veio Kelvin. Será que serve para mais que marcar um golo ao Benfica? Esperemos que sim, senão o regresso de Quaresma poderia ser uma ajuda. E encontrar um extremo à moda antiga, de ir à linha cruzar. Lamento, mas não sei dar nenhum exemplo. Mas a sua base de dados deve ter alguma coisa destas. E outro igual para o lado esquerdo. É sempre bom ter muita gente que saiba cruzar BEM!

Na frente Depoitre é um erro de casting. Paciência, o Gonçalo!, é que deveria ser o titular, ao lado de André Silva. Mandar Adrian Lopez embora. O Rui Pedro a crescer na equipa B. Jota (mais barato!) como alternativa e ir buscar um "Bas Dost" a sério. Mais caro? Claro que sim, mas seria muito mais eficaz e ninguém lamentaria o dinheiro dado por ele.

Este seria, penso eu, um plantel mais barato, mais equilibrado e adequado para a época que vem. Vai ser a falta de profundidade que vai matar o que falta da época. Olhe para o Benfica. São levados ao colo, mas também têm profundidade no plantel. O que ajuda muito quando se quer ser campeão. Mesmo a jogar contra 14.

De todo o modo, reconheça-se o bom trabalho que tem vindo a fazer.

Cumprimentos,

terça-feira, 20 de dezembro de 2016

PORTO X MARÍTIMO + PORTO X CHAVES

Meu caro Nuno

Não vi o jogo com o Chaves, e li poucas crónicas. Vi, sim, uma boa parte do jogo com o Marítimo. E é por esse que vou começar.

O jogo com o Marítimo foi um bom jogo. Para variar mais um penalty por marcar, mas isso já não é novidade. Novidade, sim, é ver Brahimi a correr e a trabalhar para a equipa e a ser decisivo. Isso sim, é novidade e é uma coisa que eu estou a gostar de ver.

Contudo, penso que deveríamos ter ido mais para cima do Marítimo. Com 2x0 no marcador estamos sempre sujeitos a que o adversário marque (e um golaço, como foi o caso) e depois é um "Ai, Jesus", como se verificou. E depois fica sempre a ideia final e não a ideia do que foi o jogo todo - um bom jogo, com um sofrimento no fim, porque se deveria ter "morto e enterrado" o jogo e não deixar apenas correr o marfim.

O jogo com o Chaves, segundo rezam as crónicas, foi mais difícil. É natural. O Chaves tem melhor equipa, tem mais atitude, e estava a mudar de treinador, logo a motivação ainda seria maior. Contudo, parece que na primeira parte a coisa não correu bem (o que assumiu, e ainda bem - já lhe disse que gosto da sua frontalidade nas conferências de imprensa?), o Chaves marcou e, se não fosse Casillas, teria marcado mais. Afinal, pagamos €5 M a um "keeper" para ser decisivo num jogo.

A segunda parte foi melhor. Deu para recuperar o "azelha" Depoitre e ganhar mais um jogo. Mais um penalty e um golo anulado. Nada a que não estejamos habituados. Habitue o pessoal que contra a Juventus só vamos jogar contra 11 e não podem facilitar. À partida sempre irá aparecer um árbitro melhor do que os senhores que têm aparecido por agora.

As crónicas também rezam que Corona esteve um tanto ou quanto afastado do jogo. Este é um dos efeitos da falta de rotação do plantel, fruto da falta de profundidade do mesmo. Na minha opinião seria uma situação a rever em Janeiro. Em princípio volto a escrever-lhe durante a próxima semana, onde lhe darei as minhas sugestões sobre o assunto.

Volto a dizer-lhe que depende de si que a coisa funcione. Tem de habituar os jogadores a jogar contra 14. E não adianta queixar-se. Interessa é jogar muito mais que os outros, e ganhar os nossos jogos. E esperar que os senhores da frente percam pontos.

Votos de um Feliz Natal.

segunda-feira, 5 de dezembro de 2016

FC PORTO X SC BRAGA

Meu caro Nuno Espírito Santo,

Não tenho escrito nada porque não tenho visto os jogos, e não gosto de comentar jogos sem os ver.

Posto isto, vamos ao que interessa - o jogo. Correu bem, ganhamos e isso é o que interessa. Queria começar por lhe dar os parabéns. Percebeu finalmente que o belga que mandou vir é mesmo um flop e não teve problema nenhum em deixá-lo na bancada. Boa notícia e gostaria de parabenizá-lo por isso.

Segunda boa notícia: percebeu que o Herrera não serve para jogar a titular no FC Porto e não tem tido qualquer problema em deixá-lo no banco. Boa notícia e gostaria de parabenizá-lo por isso.

Terceira boa notícia: a lesão do Otávio pode ajudar a potenciar o Brahimi. Gostei de ver que não hesitou em chamá-lo a jogo e compreendi que o argelino só não joga porque o brasileiro está melhor. Agora como está lesionado, Brahimi terá que ser, finalmente, chamado mais tempo a jogo.

Gostei de ver a determinação e a atitude da equipa. O jogar "à Porto" baseia-se na atitude e no compromisso face ao jogo. Querer ganhar e lutar até ao fim por isso. Como quem não tem cão caça com gato, não tendo um PLC experiente colocou um atleta da equipa B, e foi ele que marcou o golo. Foi bom para ele, mas essencial para a equipa. A catarse que esse momento causou terá que ser um momento importante da época, não pela sua sobrevivência enquanto treinador, mas pela confiança que terá que trazer para o futuro.

Queria congratulá-lo, finalmente, por não ter atirado a toalha ao chão. O jogo com o Belenenses, para a Taça CTT foi a prova mais concludente de que, até podendo ter melhor onze que os outros, não temos, definitivamente, melhor equipa. Isto porque (e não obstante termos sido mais uma vez prejudicados - já volto a isto daqui a bocadinho) as nossas alternativas são notoriamente inferiores face aos titulares, o que não favorece em nada a rotação de plantel que é necessária. Gostaria, contudo, de perguntar o que é feito de André e Sérgio Oliveira (um pela raça e outro pela qualidade de passe e marcação de bolas paradas) que não têm sido muito utilizados e que, por exemplo, poderiam ajudar a refrescar Óliver.

Queria congratulá-lo porque, apesar de todas as contrariedades, a equipa continua a jogar da mesma forma, com os mesmos processos. Isso evidencia uma confiança de que o processo é o correcto. E isso é bom, porque mostra, não parecendo, liderança. E isso, meu caro Nuno, é o que tenho vindo a alertar: é a sua capacidade de liderança que pode ajudar a mitigar alguns dos problemas que esta estrutura, outrora tão famosa, tem vindo a padecer.

Por fim, gostaria de falar sobre as suas conferências de imprensa. Na minha modestíssima opinião, penso que tem que mostrar mais "fibra" e não ser tão bonzinho e bem-falante. Falta mesmo dizer a parte do "fomos roubadinhos", ou pelo menos a parte do "não nos comem de cebolada". Dizer que "atacar o Porto tornou-se normal e isso não podemos aceitar" é demasiado bonito para um meio onde nem sempre a parte do bonito conta.

Não gosto também de o ver a fazer desenhos. O senhor não tem que estar a justificar a sua ideia. Você tem uma ideia e aplica-a. O resto, quem não perceber que lhe mande um email e o senhor explica. Isso dá uma noção de "fraqueza" que, neste momento, não é necessária.

Por fim, quando lhe perguntarem pela saída do Herrera diga que sim, que não se importa que ele saia. Diga que a SAD tem que cumprir os seus compromissos e para issso que saiam os jogadores que tenham que sair. Relembro que Casillas, Maxi, Herrera e Brahimi são dos mais bem pagos do plantel e a sua saída seria importante para baixar o valor pago em ordenados. Alternativas? Marafona (comprado ao Braga) e José Sá e Gudiño. Ricardo Pereira e Victor Garcia, Rafa Soares, Francisco Ramos e, porque não?, Bruno Fernandes da selecção sub-21, que não será, penso, muito mais caro que Depoitre. Mas isso será tema para uma carta mais para o final deste mês, sobre algumas sugestões para compôr o plantel.

De resto, não tenho mais nada para lhe dizer. Para 4a feira a receita terá que ser a mesma. E continuar a pôr o André Silva a marcar os penalties. Que raio!, ele um dia haverá de acertar outra vez e substituí-lo poderá ser contraproducente para a confiança dele.

Continuação de um bom trabalho.

sábado, 29 de outubro de 2016

VITORIA FC X FC PORTO

Meu caro Nuno,

Não o ouvi nas entrevistas rápidas. Pelo que li, concordo em absoluto consigo. Este era um jogo que era para vencer. E estes jogos ganham-se antes do intervalo. E, ao intervalo, estávamos empatados.

Não duvido que estes jogadores estavam comprometidos com o jogo. Estavam. Lutaram. Correram e deram o litro. Não chegou. Faltou eficácia e um pouco mais de qualidade. Até, porventura na hora de mexer. Herrera devia ter saído mais cedo. Se calhar era Depoitre e não Brahimi a entrar. Numa altura em que era preciso mais, tirar uma das referências pode não ter sido a melhor ideia. Por outro lado, compreendo-a. Tirar o foco da área, e, com algum lance de inspiração, a coisa poder funcionar. Não funcionou.

Do resumo da flash que li no jornal, só faltou falar de uma coisa, que, se calhar, deveria ter falado. E só deveria ter dito que "a mim, não me comem de cebolada". Penso que deveria chegar para ser entendido. O Setubal a queimar tempo o jogo quase todo e só uma advertência por esse facto. Tempos de desconto um bocado "à remisga". Um penalty por marcar, mais um livre perigoso por marcar. Enfim. Já tinha dito que tinha saudades de ver o FCP ser roubadinho. Este ano já matei as saudades que tinha.

A sua liderança também terá que passar por aqui. Directa, ou indirectamente. Ou seja, ou o senhor, ou alguém por si terá de vir dizer que "não somos comidos de cebolada". Penso que esta frase deveria chegar para ser compreendida. A estrutura já teve melhores dias e estas coisas, que antes eram intuitivas, agora têm que ser aprendidas outra vez.

E para terminar, relembro: estes jogos são para ser ganhos antes do intervalo. Isso é essencial. Quanto mais não seja para que possamos ser "comidos de cebolada" e não darmos conta disso. O resto é acessório.

Continuação de bom trabalho.

domingo, 23 de outubro de 2016

JOSÉ MOURINHO

Meu caro José Mourinho,

Permita-me, antes de mais, tratá-lo pelo seu nome, sem nenhum "qualificativo" a antecedê-lo. Além do mais, como tal é uso em Inglaterra, presumo que deva estar mais que habituado a tal, e não me parece que venha mal algum ao mundo.

Escrevo-lhe porque estou muito preocupado consigo. Desde 2009 que me parece deixar de estar a ver um treinador "vencedor" e passou a ser um treinador "medrosíssimo".

Como não acredito que as pessoas mudem de convicções à moda de Groucho Marx, estou convencido que alguém lhe fez uma lavagem cerebral (ou coisa que o valha) e que o fez esquecer o que já fez. Ao que parece, deve ter apenas as imagens dos troféus que ganhou, mas não deve ter presente a forma como os ganhou. E eu gostaria de o fazer relembrar as suas origens, a forma como, no início da sua carreira, colocou as suas equipas a jogar futebol.

O senhor começou a ser conhecido como tradutor de um senhor do futebol chamado Bobby Robson. Acompanhou-o no Sporting (onde foi despedido), no FC Porto e no Barcelona. Depois de Robson chegou Van Gaal e, quando era adjunto, o Benfica contratou-o como treinador. O senhor fez uma coisa espantosa e com um conjunto perfeitamente banal (com jogadores tão banais que era risível como jogavam no clube, como Dudic, Escalona, Chano ou Diogo Luis) conseguiu fazer a equipa jogar bem e, até, ganhar ao Sporting 3-0 na Luz. Já lhe digo qual era o esquema táctico.

Depois, o senhor exigiu que lhe renovassem o contrato. E bem, diga-se de passagem. O clube tinha mudado de presidente e convinha saber com que linhas é que se cosia. O clube não aceitou e o senhor foi à sua vida. Deu um passo atrás e foi treinar um clube chamado UD Leiria - que hoje está algures entre os distritais e a antiga II Divisão B. Encontrou jogadores que foram importantíssimos para si (também já lhe digo porquê) como Derlei, Nuno Valente e Maciel. Tal como no Benfica, as coisas correram bem, e o senhor, a meio da época foi para o grande rival do Benfica, o FC Porto, para minha enorme alegria (se bem que eu o achava um tanto ou quanto presunçoso, mas muito competente).

O seu esquema táctico de sempre assentava no 4x3x3. No Benfica, no Leiria e no FC Porto. Derlei e Nuno Valente, e mais tarde Maciel, foram importantes para si porque ganhou quase tudo o que havia para ganhar nos dois anos subsequentes - faltou uma Supertaça Europeia (onde, para variar, fomos prejudicados por uma explusão por marcar a Seedorf com 20-30 para acabar o jogo e nós a dominar), e de resto ganhou tudo.

Não se esqueça desta parte - o seu sistema táctico de sempre era o 4x3x3. Como ganhou tudo no FCP decidiu mudar de ares. Não o fez da forma mais delicada (disse que queria ir embora numa flash-interview, o que não é bonito), mas foi. E foi seduzido por uma proposta de um milionário russo que, um ano antes, tinha tomado conta de um clube inglês - o Chelsea. Sim, o senhor passou por lá duas vezes, não foi só uma.

Quer no Porto, quer no Chelsea, o senhor teve duas premissas essenciais. Não há espaço para vedetas: a única vedeta era a equipa. Por isso, no Porto, dispensou pseudo-estrelas como Ibarra, Maric, ou Pavlin. No Chelsea fez o mesmo com Verón (internacional argentino), Crespo (idem), Petit (francês, não o do Benfica e de Portugal que hoje treina o Tondela), etc, etc. E sempre em 4x3x3. Contratou Makelele, Drogba, Robben, e outros. Característica? Nenhum deles era estrela. Estrela era a equipa. E funcionou, sabia? Meias finais da Champions três anos seguidos, dois campeonatos e o outro a lutar até ao fim, uma Taça de Inglaterra, entre outros. A coisa correu bem. No início da quarta época o senhor teve um problema com o dono do clube, que não lhe deu os jogadores que o senhor queria e, depois de um início titubeante (e consta-se que em guerra com alguns dos pesos pesados do plantel, como Lampard - é verdade, o senhor potenciava bem jogadores que não eram muito conhecidos, como este e Terry), pôs-se a andar dali para fora.

Depois foi para Itália. Voltou a ser rei e senhor da coisa. Imagine-se que até houve um ano em que ganhou tudo. Campeonato, Taça e Champions. Em dois anos, mudou a equipa toda, dispensou as pseudo-estrelas que por ali andavam (imagine-se, o senhor dispensou Patrick Vieira, Suazo e Recoba) e contratou Milito (que ninguém sabia quem era, excepto quem jogasse Football Manager), Sneijder e Thiago Motta. Sim, eles passaram por si para serem estrelas do futebol europeu. Mais uma vez, sempre em 4x3x3 e sem grandes estrelas na equipa.

Todas estas três equipas têm ainda um outro ponto em comum. Além de jogarem em 4x3x3, jogavam bem à bola. Então o FCP da primeira época e o Chelsea da primeira época, principalmente, jogavam à bola que se fartavam. Mesmo. Parece impossível? Mas é verdade.

Depois vem aquele que eu acho que é o fim da história. Quando ganha a Champions, o senhor, ao despedir-se de Materazzi fica extremamente emocionado e chora. Penso que foi aí que o senhor ficou com amnésia definitiva sobre tudo aquilo que fez. Porque depois foi para o Real Madrid e é o que se sabe. Continuou sem contratar grandes estrelas, mas deixou de jogar em 4x3x3 e passou a jogar em 4x2x3x1. E pior, a sua equipa deixou de ter futebol de qualidade, a não ser a espaços. Em Espanha aquilo eram favas contadas e ficava tudo entre Real Madrid e Barcelona. No primeiro jogo entre Real e Barça o senhor levou 5 batatas a seco. Ainda ganhou a Taça, num jogo em que se limitou a defender, do princípio ao fim. Parece que isto lhe serviu de inspiração. O senhor preferiu que as suas equipas passassem apenas a defender e depois alguém na frente que resolvesse o resto do assunto. No Real tinha Ronaldo e a coisa lá se safava. Ganhou um campeonato e na terceira época entrou em choque com quase toda a gente e foi-se embora.

Depois voltou ao Chelsea. A jogar sem trincos, no primeiro ano fez a desfeita ao Liverpool para não ganhar o campeonato, e conquistou-o no segundo. A meio da terceira época foi despedido. E agora está no United.

E como, desde aquele abraço do Materazzi, eu acho que e senhor teve uma "lavagem cerebral" gostaria de lhe dar uma ajudinha. O senhor tinha como base, não saber defender, mas sim ter a bola em seu poder muito tempo. Não era como as equipas de Guardiola, que são aborrecidas, mas era uma equipa normal, digamos assim. E isso assentava numa defesa com qualidade, num trinco que fosse quase omnipresente (Costinha, Makelele, Cambiasso), e médios que soubessem controlar bolas e passar bolas. Ah!, e eram essencialmente equipas relativamente baratas.

O seu último Chelsea e este United são caricaturas daquilo que o senhor fazia. Então este United é de fugir. E eu vou ao assunto: depois disto tudo, percebe porque é que não se justifica ter dado 120 milhões de euros por uma inutilidade ambulante chamada Pogba, quando podia perfeitamente ter repartido esses milhões todos por, pelo menos quatro jogadores: um central a sério para fazer companhia ao miudo francês que me parece ter algum jeito, mas Smalling é um perigo, um lateral esquerdo, porque Shaw está sempre lesionado, um trinco que seja um suporte a defender (sim, porque no seu United ninguém defende!) e um extremo a sério, um abre-latas que não Rashford ou Martial (a propósito, que é feito de Dapay?). E sim, José, tem mesmo de voltar ao 4x3x3, com um "cabeça-de-área" que lhe controle aquele jogo todo. Não vá mais longe - vá ao Porto buscar o Comendador Danilo Pereira ou ao Benfica buscar Fejsa, se bem que esse está muitas vezes lesionado, mas que também é muito bom. Penso que 30 milhões serão mais que suficientes para trazer qualquer um dos dois. E trate, também, de melhorar a parte do futebol. As suas equipas parece que estão a jogar sobre brasas, o que não as ajuda. Além de que o senhor parece que tem medo de qualquer equipa que jogue para cima de metade da tabela. Isto, para a sua qualidade, é, de facto, incompreensível.

Acredito que este possa ser o seu "ano zero" de United. Mas tenha paciência. O senhor tem qualidade e capacidade para, apesar disso, fazer mais e melhor.

Com os melhores cumprimentos.

sábado, 22 de outubro de 2016

AROUCA X FC PORTO

Meu caro Nuno,

Quero congratulá-lo por mais uma vitória. Vou começar pelas coisas más, ou, melhor dizendo, pelas coisas que não gostei, e vou terminar com as coisas que gostei e uma sugestão.

Não gostei de muitas coisas, começo por dizer-lhe. Encostar Oliver a uma ala é tirá-lo do jogo, ainda para mais num jogo em casa, que é para ganhar, e quanto mais cedo melhor. A prova é que, quando vinha para o meio, o espanhol era muito mais perigoso e muito mais eficiente nas intervenções que tinha no jogo. O pior é mesmo a parte de colocar Herrera no meio - o mexicano estorva mais do que ajuda. O ideal será mesmo voltar ao plano inicial e não lhe mexer muito - Oliver no meio e Herrera encostado a uma das alas.

Não gostei da forma um pouco apática como entrámos na 2a parte. Estávamos mesmo a pedir um golo do Arouca, que só não acontece porque eles jogam pouco e também porque tivemos um grandíssimo Danilo, a fazer jus à comendadoria com que foi agraciado.

Não gostei também, e isto volta e meia vem-se repetindo, pela nossa incapacidade em "desengonhar" o jogo (com Oliver no meio o jogo fica muito mais fluido) e, ainda pior, na nossa incapacidade em criar oportunidades de golo, principalmente na 2a parte. O senhor sabe disso, este tipo de jogos propicia-se a um erro defensivo que, originando um golo, torna-se difícil de contrariar.

De resto, gostei do princípio. Corona é uma mais valia, que pode ajudar a que Octávio possa ser poupado mais vezes - cuidado com a lesão dele, não vale a pena forçar. Voltei a gostar dos laterais - um e outro muito interventivos no ataque. O ideal seria chamar um dos emprestados para fazer a segunda metade da época, para ajudar na rotatividade.

Por fim, as sugestões: Brahimi tem as ideias lá, mas nota-se que tem falta de ritmo de jogo. Quarta-feira a equipa B joga? Se sim, ele deveria jogar os 90 minutos. Ele está com muito tempo de jogo perdido e quanto mais jogar, melhor para ele. Nota-se que as ideias estão lá, mas veio ao de cima o Brahimi sem forma: trapalhão, ansioso, a querer fazer tudo sozinho. E "rezingão". Diga-lhe lá que os adeptos gostam é de alto rendimento, e que ele não tem a melhor das famas nas bancadas. Portanto, as pessoas têm tendência a ser muito mais exigentes com as pessoas de quem "não gostam". É assim em todo o lado e ele tem que se habituar a não ser estrela.

Para terminar, um elogio - Brahimi é um bom jogador e tem que ser acarinhado e valorizado. Gostei da sua atitude quando, após mais uma iniciativa infrutífera Brahimi foi assobiado, se apressou a incentivar o jogador. Nota-se que ele está muito ansioso e que quer voltar aos "velhos tempos". A sua capacidade de liderança (neste caso "afectiva") é, como sempre, essencial, porque a célebre "estrutura" já viveu melhores dias.

Continuação de bom trabalho.

domingo, 2 de outubro de 2016

NACIONAL X PORTO

Meu caro Nuno Espírito Santo,

Quero desde já congratulá-lo pela melhor exibição que o Porto fez esta época, destronando o jogo feito em Roma, na segunda mão da pré-eliminatória da Champions League desta época.

Queria também felicitá-lo porque finalmente parece que descobriu duas coisas que pareciam impossíveis: a melhor forma de usar o Herrera sem que ele estorve como costuma estorvar (essa, sim, foi a grande descoberta e que pode mudar a temporada) e também qual o melhor avançado para jogar ao lado do André Silva. Esta descoberta tem um problema associado - temos que arranjar 20 milhões de euros, ou uma cunha do Jorge Mendes, para ele poder ficar por cá mais uns anos.

Comecemos pelo princípio. Esta época Boly terá que ser sempre o terceiro central. Como não fez a pré-temporada, não tem as rotinas de jogo para jogar com Felipe (a propósito, diga-lhe para ele ter um pouco de calma: fez um corte que me ia matando de susto, aquele biqueiro na bola, a 1 metro da nossa baliza, podia ter dado golo - ele não pensou nisso?) e Marcano, pelo menos para estes jogos, até parece o Maldini - certinho, a coisa nem tem estado a correr assim tão mal. E Danilo voltou a ser um gigante no meio campo. Podia ter dado descanso a um dos laterais, quando meteu o Maxi, mas pronto, são opções que não vou discutir.

Laterais em bom nível. Muita produção atacante e muita ajuda ao extremo (Telles) e muito envolvimento ofensivo (Layun). A coisa, por estes lados, também parece estar a encarrilhar. Podiamos era não ter emprestado um dos laterais, para irmos fazendo a rotação e eles estarem sempre a bom nível. Qualquer um deles. Layun, fazendo as duas posições, é uma mais valia. Nesse aspecto foram duas boas compras.

No meio, Octávio e Oliver parecem estar a entender-se e, dando espaço a Herrera para ele correr e levar a bola, sem estar sempre no meio a "engonhar", o homem até parece grande jogador. Essa foi uma boa ideia - encostá-lo à direita, para proteger o sempre ofensivo Layun (ou Maxi, que também é ofensivo) e tirá-lo do pior sítio onde o podiam ter metido -  o centro do jogo. Aí, Oliver é mestre a jogar e Octávio tem tudo para poder dar mais uns cobres ao Porto. É só saber potenciar os homens. Mais um problema: afinal vamos ter que dar 40 milhões ao Atlético de Madrid. Podíamos era pedir para fazerem um abate pelo preço absurdo pelo qual pagámos o Adrian Lopez. Com o jeitinho do Jorge Mendes, a coisa fazia-se por 30.

Na frente, André Silva é nitidamente um "nº 9" e livre-se de o voltar a por nas costas do Depoitre. Faça isso apenas em caso de desespero - e pode ser (não garanto) que a coisa resulte. A dupla da frente é Jota e André, é portuguesa e vai dar para os próximos 10 anos na selecção. Os 20 milhões de euros, caso fique cá 10 anos, é o mesmo que pagar 2 milhões por ano por um barrete - acredite que compensa mais.

Jogar com Jota na frente traz mais uma coisa importantíssima: jogar nos espaços, em vez de jogar no pé. Esta última forma requer executantes exímios e rápidos a jogar, o que não é o caso dos nossos jogadores. A primeira pede transições rápidas e passes de rotura - o ideal para jogadores com a criatividade de Oliver ou Otavio. Penso que seria interessante continuar nesta trajectória, mudando apenas um ou outro jogador no próximo jogo, que será em casa.

Gostei também da atitude. O seu murro na mesa no final do jogo de Tondela foi importantíssimo. Mais importante que tudo o resto. Uma equipa que quer lutar pelo título tem que ganhar estes jogos. Aliás, pode mesmo mostrar as estatísticas - o Porto já perdeu os dois jogos com o Benfica e mesmo assim foi campeão. É nestes jogos que se perdem os campeonatos. O Sporting também estava a ganhar e, pelos vistos, facilitou e permitiu o empate. Hoje não o permitimos e fomos à procura do quarto golo para confirmar. É disso que os adeptos do Porto gostam, como sabe: mais e mais. Bobby Robson, após uma má exibição do Porto, mandou os jogadores treinar. É isso que queremos: atitude e ambição - sempre para mais, nunca para deixar correr.

Neste tempo de selecções o ideal é aproveitar para rever a matéria dada com quem chegou mais tarde. Jota e e Boly podem lucrar muito com isso.

Nunca se esqueça do que lhe venho a dizer - é a sua capacidade, ou falta dela (e eu espero que não), que poderá fazer a diferença para este plantel. A estrutura do passado não conta para estas coisas.

Cumprimentos.