terça-feira, 24 de julho de 2012

O ESTRANHO CASO DAS REMUNERAÇÕES

Fomos confrontados recentemente com uma reivindicação dos enfermeiros face ao reduzido salário que lhes propunham. Camilo Lourenço relata, no "Jornal de Negócios" um problema similar. No IEFP oferecem mais dinheiro a um serralheiro que a um advogado. Errado? Não, certo!

Temos então de ver o que se passa em ambos os casos. No que toca aos enfermeiros, a empresa de prestação de serviços que serviria de intermediária teria uma comissão das horas, que originaria o valor que foi anunciado nos media. Os tais 3.99€.

Mas não acredito que o valor fosse muito superior. O problema aqui resulta de um problema que é estrutural na economia portuguesa. O facto de se promoverem as licenciaturas em detrimento dos cursos técnicos fez abalar todo o tecido produtivo da nossa sociedade. Por mim falo, porque sei que vou ter problemas no futuro e que as minhas remunerações não vão ser por aí além.

Este é um problema de oferta e de procura. Antigamente, procuravam-se quadros superiores. O grande problema é que não eram abundantes. O Estado Novo não promovia a qualificação dos portugueses, promovendo apenas os conhecimentos mínimos, que eram exigentes, mas mínimos (a famosa 4a classe...). A falta de quadros superiores e a sua procura faria aumentar o preço - neste caso, a remuneração.

No pós-25 de Abril a procura da "igualdade" veio trazer grandes problemas a todos. Podia falar da Constituição e daquilo que foi feito agora pelo TC, mas isso fica para outro post. O problema também veio com a Educação, onde se definiu que todos deveriam ser licenciados, dando uma "marretada" muito forte nos cursos técnicos, que não dariam acesso a tais licenciaturas. Deste modo, aumentou-se o número de quadros superiores e diminuiu-se o número de técnicos.

E foi onde chegamos. Agora vem toda a gente criticar o valor reduzido que se paga a um "doutor". Pois. Mas o mundo rege-se sempre pela lei da oferta e da procura. Quando não há, ou há pouco, paga-se mais do que quando há muito. E nas profissões não é excepção. E chegamos ao caso extremo em que se paga mais por um serralheiro (porque há poucos, ao invés de quando havia muitos...) do que a um licenciado (porque há muitos, ao invés de quando havia poucos...).

O excesso de enfermeiros, que saem quer de Universidades públicas ou privadas, origina a que as suas remunerações baixem. E não vai ser com intervenções estatais que a coisa vai resultar, porque o problema vai acabar por vir ao de cima outra vez. E da próxima vez já não vai haver intervenção possível. O mesmo se passa com os advogados, arquitectos e outros que tais. E a tendência vai ser a de as remunerações atingirem os valores da remuneração mínima garantida (ordenado mínimo...), por incrível que possa parecer.

Exploração? Não, porque antigamente não era exploração. É simplesmente a lei da oferta e da procura. Para o bem e para o mal...

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