Fomos confrontados recentemente com uma reivindicação dos enfermeiros face ao reduzido salário que lhes propunham. Camilo Lourenço relata, no "Jornal de Negócios" um problema similar. No IEFP oferecem mais dinheiro a um serralheiro que a um advogado. Errado? Não, certo!
Temos então de ver o que se passa em ambos os casos. No que toca aos enfermeiros, a empresa de prestação de serviços que serviria de intermediária teria uma comissão das horas, que originaria o valor que foi anunciado nos media. Os tais 3.99€.
Mas não acredito que o valor fosse muito superior. O problema aqui resulta de um problema que é estrutural na economia portuguesa. O facto de se promoverem as licenciaturas em detrimento dos cursos técnicos fez abalar todo o tecido produtivo da nossa sociedade. Por mim falo, porque sei que vou ter problemas no futuro e que as minhas remunerações não vão ser por aí além.
Este é um problema de oferta e de procura. Antigamente, procuravam-se quadros superiores. O grande problema é que não eram abundantes. O Estado Novo não promovia a qualificação dos portugueses, promovendo apenas os conhecimentos mínimos, que eram exigentes, mas mínimos (a famosa 4a classe...). A falta de quadros superiores e a sua procura faria aumentar o preço - neste caso, a remuneração.
No pós-25 de Abril a procura da "igualdade" veio trazer grandes problemas a todos. Podia falar da Constituição e daquilo que foi feito agora pelo TC, mas isso fica para outro post. O problema também veio com a Educação, onde se definiu que todos deveriam ser licenciados, dando uma "marretada" muito forte nos cursos técnicos, que não dariam acesso a tais licenciaturas. Deste modo, aumentou-se o número de quadros superiores e diminuiu-se o número de técnicos.
E foi onde chegamos. Agora vem toda a gente criticar o valor reduzido que se paga a um "doutor". Pois. Mas o mundo rege-se sempre pela lei da oferta e da procura. Quando não há, ou há pouco, paga-se mais do que quando há muito. E nas profissões não é excepção. E chegamos ao caso extremo em que se paga mais por um serralheiro (porque há poucos, ao invés de quando havia muitos...) do que a um licenciado (porque há muitos, ao invés de quando havia poucos...).
O excesso de enfermeiros, que saem quer de Universidades públicas ou privadas, origina a que as suas remunerações baixem. E não vai ser com intervenções estatais que a coisa vai resultar, porque o problema vai acabar por vir ao de cima outra vez. E da próxima vez já não vai haver intervenção possível. O mesmo se passa com os advogados, arquitectos e outros que tais. E a tendência vai ser a de as remunerações atingirem os valores da remuneração mínima garantida (ordenado mínimo...), por incrível que possa parecer.
Exploração? Não, porque antigamente não era exploração. É simplesmente a lei da oferta e da procura. Para o bem e para o mal...
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